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Barry Eichengreen (O Estado de S. Paulo – 14/02/2010)                       

Para brasileiros de uma certa idade, ver a crise financeira se desenrolar na Grécia deve criar um sentimento de dêjà vu. Um problema clássico de insustentabilidade fiscal ameaça não só as finanças públicas, mas a estabilidade da moeda e de bancos na Europa.

Mas essas circunstâncias tétricas se desenrolam num país que, pasmem, integra a União Européia e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em mercados emergentes como o Brasil, ao contrário, a estabilidade prevalece. O crescimento segue inalterado.

Assim, a idéia de que o Brasil pode aprender lições importantes que o Brasil pode tirar da tragédia grega.

A primeira é a importância da flexibilidade cambial. A Grécia, tendo entrado na zona do euro, não tem uma moeda nacional. Isso significa que ela não tem uma taxa de câmbio para ajustar. Isso transforma numa tarefa hercúlea (trocadilho internacional) a consolidação fiscal que terá pela frente neste momento. Aliás, essa tarefa será provavelmente impossível sem uma ajuda emergencial.

Os únicos países que completaram com sucesso o tipo de ajuste fiscal maciço com que a Grécia hoje se depara, de reduzir em 10% os gastos públicos em apenas três anos, simultaneamente evitaram uma queda da produção desvalorizando a moeda e estimulando as exportações. Essa não é uma opção disponível aos nossos amigos gregos.

Os exportadores brasileiros se queixam do real forte. E críticos do atual “não-sistema” monetário internacional anseiam por algo melhor. Na verdade, eles deveriam agradecer a sorte de o Brasil e, mais geralmente, o mundo terem a capacidade de ajustar suas taxas de câmbio quando o inesperado acontece.

Uma segunda lição é a necessidade de limites e disciplina nos bons tempos. Depois de sua adesão ao euro, os gregos fizeram uma festa monumental. Com a adesão ao euro, as taxas de juros caíram abaixo dos níveis alemães. Com o crédito barato, as famílias e o governo gregos entraram numa farra de endividamento. Esse comportamento familiar se manifestou numa taxa de poupança alarmantemente baixa.

A prodigalidade do governo, por sua vez, deixou pouco espaço para o estímulo fiscal quando a crise se abateu em 2008. As autoridades, em sua sabedoria, aplicaram o estímulo fiscal mesmo assim e agora estão pagando o preço.

O Brasil não é a Grécia. Mas o Brasil também experimenta um boom de consumo e tem uma taxa de poupança doméstica relativamente baixa. À medida que as taxas de juros caíram, de forma muito parecida com o ocorrido na Grécia, o endividamento familiar como parte da renda doméstica dobrou. Não há nada de errado em gozar a vida. Mas é bom pensar no que acontece quando o carnaval termina.

Uma terceira lição é a importância de uma boa governança. A Grécia está arruinada por fraude e corrupção. O suborno de funcionários públicos é corriqueiro. O pequeno envelope de dinheiro, conhecido como “fake-laki”, é entregue a funcionários públicos antes mesmo da prestação do mais banal dos serviços. É esse ambiente que encoraja o governo a manipular os números ocultando a real magnitude de seu déficit fiscal.

E é esse ato que agora torna ainda mais difícil para o país recuperar a confiança do público e dos mercados financeiros.

Isso é terrível. A única coisa que é mais terrível é que o Brasil na realidade está abaixo da Grécia no “Índice de Percepções de Corrupção” de 2009 da Transparência Internacional. Por isso, foi muito oportuno o presidente Lula ter encaminhado recentemente ao Congresso um projeto de lei contra a corrupção.

A sua aprovação dará ao País uma reserva de boa vontade nos mercados financeiros que poderá lhe servir em tempos mais difíceis.

A lição final é a necessidade de o Brasil continuar desenvolvendo sua base manufatureira. Os problemas da Grécia não se limitam ao fato de que as pessoas não pagam impostos e que o governo mentiu sobre a situação fiscal.

Fundamentalmente, o problema é que a Grécia nunca aprendeu a fabricar quase nada de que o mundo precisa. Sua economia é forte em marinha mercante, finanças e turismo. Praticamente inexiste ali uma indústria manufatureira competitiva.

E nisso reside a grande vantagem do Brasil. Diferentemente da Grécia, o Brasil tem uma economia bastante diversificada. Ele é internacionalmente competitivo na produção de pneus de caminhão, aviões para uso regional e uma diversidade de outros bens manufaturados. Ele pode desenvolver esses setores e avançar progressivamente para produtos de maior valor agregado.

Seus únicos problemas são infraestrutura e educação inadequadas. O atual governo fez um trabalho admirável de viver dentro dos próprios recursos.